Números que enganam
Alguns resultados da estatística contrariam frontalmente a intuição — e são exatamente os que mais aparecem distorcidos em textos de divulgação.
Paradoxo do aniversário
Em um grupo de apenas 23 pessoas, a probabilidade de duas compartilharem a data de aniversário já supera 50%. Com 57 pessoas, passa de 99%. A intuição compara com a probabilidade de alguém fazer aniversário no seu dia — mas o cálculo correto conta todos os pares possíveis: 23 pessoas formam 253 pares. Muitas comparações simultâneas transformam probabilidades minúsculas em certezas quase imediatas.
Lei dos grandes números
Com repetições suficientes, a frequência observada converge para a probabilidade real. A inversão é falsa: a lei não "corrige" desvios no curto prazo. Uma sequência inicial atípica não cria qualquer pressão de compensação — apenas se dilui à medida que o volume total cresce. Confundir as duas coisas é a base do erro de interpretação mais comum em processos repetidos.
Cauda longa
Distribuições de cauda longa — comuns em avaliações, vendas e muitos fenômenos sociais — têm a maioria dos eventos pequena e uma minoria extrema que domina a média. Nessas distribuições: a média não representa ninguém, o desvio padrão perde utilidade descritiva, e eventos "raras vezes maiores que tudo que já se viu" são parte natural do modelo, não surpresas que exigem explicação extraordinária.
Correlação não é causalidade
Duas variáveis podem se mover juntas por três motivos distintos: A causa B, B causa A, ou uma terceira variável C causa ambas. Exemplos clássicos de variáveis fantasmas incluem crescimento populacional correlacionado a infraestrutura, e consumo de determinados produtos correlacionado a indicadores socioeconômicos. Sem desenho de estudo que isole a variável (controle, randomização ou análise de tendências temporais), correlação é hipótese — nunca conclusão.
Paradoxo de Simpson
Uma tendência visível em cada grupo separado pode inverter quando os grupos são agregados. Mecanismo: os grupos têm tamanhos diferentes e níveis basais diferentes — a agregação pondera os subgrupos de forma desproporcional. Antes de concluir qualquer coisa de um número agregado, pergunte como ele se decompõe.
Resumo. Intuição falha de forma previsível com pares, com agregações e com caudas longas. O costume de perguntar "como isso se decompõe?" resolve a maioria das armadilhas.